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22 de mai de 2009

EDUCAÇÃO/CIVILIZAÇÃO/BARBÁRIE



Quero dividir com todos esta reflexão que fiz na atividade da interdisciplina de filosofia por acreditar que faz parte também de minhas reflexões teoria x prática.
Tendo lido o texto sugerido como referencia a esta atividade, observei algumas sentenças que na seqüência formam a síntese da minha análise. Muito bem citado Auschwitz como instrumento para ilustrar a relação educação/civilização e barbárie no ensaio do filósofo alemão Theodor Adorno (1903 - 1969) intitulado Educação após Auschwitz. Dá para se compreender a profundidade e contexto por ele idealizado em seu texto. Como o autor mesmo diz. Dispensa qualquer justificativa ou explicações. Percebi a importância da educação e de nós educadores no processo de conscientização do indivíduo e humanização. Até porque realmente não há a consciência da monstruosidade cometida, podendo sim ser repetida se não for devidamente desmascarado o que levou os homens acometer tal horror. Falo do resgate do ser humano enquanto humanidade. Não só resgatar sentimentos fraternos, mas, o conhecimento e a reflexão sobre si mesmo. Veja o que o autor diz: “A educação só teria pleno sentido como educação para a auto-reflexão e crítica”. Ontem mesmo, aconteceu algo em minha sala de aula que me levou apensar sobre barbárie. São apenas crianças e às vezes demonstram sentimentos e atitudes irracionais, hoje são atos que podemos contornar. Mas, e quando forem adultos? Um menino amassou um trabalhinho em que a coleguinha passou a manhã toda fazendo com muita concentração, carinho e dedicação. Fiquei chocada diante de um fato “tão monstruoso”, tal era a decepção da menina e a coragem do menino em destruir algo ao bonito e significativo. Levantei questões bem profundas usando uma linguagem em que crianças de 7 anos pudesse refletir à respeito. Acredito estar sendo fundamentalmente mediadora e responsável ao oportunizar e até mesmo criar situações em sala de aula que levam meus alunos a auto-reflexão e crítica. Lembrei-me de Freud em sua teoria quando afirma que a civilização produz a anticivilização. O menino o qual me referi é bastante imaturo para a idade de7 anos, tem características egocêntricas lá do período pré-operatório e ainda briga com os coleguinhas fisicamente, mordendo e chorando em sala de aula como se tivesse uns três anos de idade. Em nada se parece com as características de desenvolvimento cognitivo e psicogenético de que fala Piaget (para a sua idade, claro). Esta criança colocada em um ambiente social que é a escola e às aprendizagens que lhe é apresentada, tem atitudes de rebeldia e negação. Por algum motivo tem-se revoltado e reagido negativamente ao crescer, aprender e desenvolver-se.
Algumas vezes ouço um ou outro achar chato não ter respostas prontas e ter que refletir e raciocinar sobre questões filosóficas quando somente queria saber se poderia ir ao banheiro ou não. Devolvo a pergunta à criança fazendo ela me dizer se ela vai ao banheiro ou não. Não é rara às vezes em que a criança me responde que não, que pode ir mais tarde. Não faço esforço para agir assim, talvez, como vimos em estudos de semestres anteriores, ao refletirmos sobre a nossa formação docente, que a minha formação enquanto ser humano é responsável pela professora que sou.
Concordo com o autor quando ele fala que a “nossa sociedade, embora se integre cada vez mais, incuba simultaneamente tendências desagregadoras”. Basta ver a interação resultante no uso da internet, ao mesmo tempo em que cada vez mais apesar da possibilidade de conversas on-line em toda a extensão do planeta, as pessoas preferirem relacionamentos virtuais e algumas jamais passarem disso. Com isso demonstram o quão difícil esta sendo a relação próxima fisicamente. Muitas pessoas já não sabem mais agirem numa relação onde se dá o contato físico, não conseguem resolver conflitos tendo de encará-los e exporem-se à realidade. Tenho visto e conhecido por meio da internet pessoas extremamente carentes que apesar da “eterna” busca não conseguem sair do campo virtual para uma relação onde a realidade deve ser construída à medida que elas evoluem nos diferentes aspectos humanos.
Quando o autor argumenta que o povo (ao referir-se ao genocídio de Auschwitz) “não se mostraram à altura da liberdade que caíra do céu”, fiz uma imediata associação às atitudes dos nossos jovens na atualidade. Todos os dias nós nos deparamos com situações em que ficamos perplexos. Nossos jovens cresceram em ambientes familiares em que os pais, na maioria, por terem de sair de casa e trabalharem mais horas para sustentar seus filhos, entregaram a educação destes para escolinhas, “titias”, babás, televisão e internet. Pais cobram agora dos professores uma educação que eles não deram aos filhos nas respectivas idades as quais cada característica do desenvolvimento humano exigiu para a formação da personalidade. Os jovens hoje têm uma liberdade a qual não estão preparados para recebê-la e, no entanto nem escolhas têm, a total ou parcial falta do significado das figuras dos pais na formação de seus filhos, hoje está camuflada pela liberdade. Estes jovens estão perdidos, num profundo abismo e vazio, agarram-se a qualquer coisa num desespero em conceituar algo e em busca de um significado em seu vazio espiritual. Falta à família, falta Deus, falta o indivíduo em si mesmo. Diz Theodor brilhantemente: “O fato de as pessoas já não terem vínculos seria responsável pelos acontecimentos”.
No entanto, não concordo com Kogon em sua afirmação de que a “diferença cultural ainda existente entre cidade e campo”, (talvez explique parte da barbárie de Auschwitz), ele fala qualquer coisa de uma desbarbarização mal sucedida com as pessoas do campo. Hoje podemos falar diferente, vim do interior, campo mesmo, lembro-me de ver uma televisão pela primeira vez aos 12 anos de idade e depois disso os programas eram filtrados pelos adultos. Não víamos qualquer coisa e se entendi direito, (perdoem-me, por favor, senão entendi corretamente, acredito que o autor está referindo-se exclusivamente ao genocídio de Auschwitz) o autor fala das pessoas que moram no campo como se tivessem menos culturas dos que vivem na civilização. Posso estar aqui cometendo um erro extremamente grosseiro, se mal compreendi o que li. As pessoas que vivem no campo possuem princípios e valores arraigados às estruturas familiares. Mesmo os filhos de pais separados possuem muito fortes em sua formação humana os vínculos, sentido e objetivos da vida. Pais mesmo separados continuam cumprindo com suas responsabilidades nos papéis muito bem definidos na formação dos filhos. Jovens do campo têm os estudos como primordial na sua própria formação para a vida adulta. Passam com maior índice em vestibulares em Universidades Federais e Estaduais, não por que não têm condições financeiras para Universidades Particulares, este não é o motivo pelo seu ingresso em Universidades Públicas, mas, por que priorizam as Universidades melhores conceituadas. Enquanto que jovens das cidades “civilizadas” estão perdidos em seus princípios e valores distorcidos. Não me julguem, de forma alguma estou generalizando, quando falo neste texto, descrevo e refiro-me cada caso ao seu caso.
O autor segue falando de uma “Consciência coisificada, de um consciente que rejeita tudo que é conseqüência, conhecimento do próprio condicionamento, e aceita incondicionalmente o que está dado. Se esse mecanismo compulsório chegasse a ser rompido alguma vez, acredito algo seria ganho com isso”. As pessoas do campo têm personalidades fortes, autonomia, desde muito cedo as responsabilidades e conseqüências de seus atos lhes são atribuídas e têm que assumí-las. Os conhecimentos técnicos são adquiridos com o objetivo de ser instrumento facilitador no alcance mais complexo do desenvolvimento, pensa-se em objetivos coletivos, família, comunidade e sociedade como um eu/coletivo = SERHUMANO e não “na busca do interesse próprio de cada um contra os interesses de todos os demais”.
Um dos grandes fatores pelo caos da identidade de humanidade é o fato de que “as pessoas hoje, com exceções, sentem-se mal-amadas, porque não são capazes de amar suficientemente”. É necessário ainda ensinar a amar, é possível fazer isso em sala de aula sim, ensinamos a amar, se soubermos amar é claro. Cultivar o amor não me parece esforço vão; cabe-nos o direito de pregá-lo, porque a falta de amor hoje – ao contrário do texto_ não é uma falha de todos, sem exceção. “Para pregar o amor, seria preciso que aqueles aos quais nos dirigimos que procuramos modificar tivessem uma estrutura de caráter diferente. Porque as pessoas que devemos amar já são incapazes de fazê-la e assim se tornam, por sua vez, menos dignas de ser amadas”. Considero-me digna de ser amada por que sei amar e ensino a amar. Talvez esta seja a grande sacada da educação: Professores e escola ensinarem a amar e pregarem o amor. Como diz Charles Fourier “só seria possível quando os impulsos humanos deixassem de ser reprimidos e fossem satisfeitos e liberados”. Professores mediarem esta externação de impulsos para que as crianças conheçam-se a si mesmos podendo aprender sobre seu EU, recriarem-se evoluindo crítica e conscientemente. Ainda segue, “Quanto mais bem forem tratadas as crianças, quanto menos forem negadas na infância, mais chances elas terão”. Mesmo que depararem-se com algo que não podemos deixar se repetir como Auschwitz, produzirmos uma EDUCAÇÃO/CIVILIZAÇÃO/sem BARBÁRIE.